
Quase dois anos depois do crime que chocou a comunidade de Schaerbeek, a câmara de acusação de Bruxelas ordenou, na sexta-feira, a libertação do principal suspeito. A decisão não está relacionada com as provas, mas com um erro processual elementar: as autoridades enviaram para a prisão um documento errado. A família da vítima, Diana Andreea Grama, fala de um «novo abandono» por parte do sistema.
(Redação: Bélgica / Justiça e sociedade)
A 3 de dezembro de 2024, Schaerbeek, em Bruxelas, foi palco de uma tragédia que voltou a colocar em destaque a violência doméstica e as falhas do sistema judicial. Diana Andreea Grama, cidadã romena de 36 anos e proprietária do conhecido Ruya Café, foi encontrada sem vida no átrio do edifício onde morava, mesmo por cima do seu café. Tinha sido esfaqueada mortalmente. O principal suspeito foi rapidamente identificado como o seu antigo companheiro, com quem tivera uma relação conflituosa que terminara cinco anos antes.
Cronologia de uma tragédia anunciada
Segundo os investigadores, a relação entre Diana e o antigo companheiro foi marcada por conflitos repetidos, sobretudo devido a um apartamento que ambos possuíam. Depois da separação, Diana assumiu a gestão do café e transformou-o num negócio de sucesso, mas o homem terá continuado a assediá-la. Amigos disseram aos meios de comunicação belgas que ela se sentia ameaçada e que era frequentemente incomodada pelo ex-companheiro. Durante a investigação surgiu um pormenor decisivo: pouco antes do homicídio, um tribunal deu razão a Diana num litígio relativo ao apartamento e obrigou o homem a pagar-lhe uma quantia considerável. Segundo os investigadores, essa decisão poderá ter sido o motivo desencadeador.
Libertação causa indignação
Após quase dois anos de prisão preventiva, a câmara de acusação de Bruxelas (Kamer van Inbeschuldigingstelling – KI) ordenou, na sexta-feira, 6 de novembro de 2026, a libertação do suspeito. A informação foi divulgada pelo Ministério Público de Bruxelas e pela Procuradoria-Geral. A porta-voz An Schoonjans referiu «uma discussão técnica sobre uma questão processual». O tribunal acabou por decidir a favor do suspeito.
Segundo informações divulgadas pela imprensa belga, o erro foi de uma simplicidade desconcertante. A investigação estava quase concluída e tinham sido solicitadas diligências adicionais. A prisão preventiva do suspeito fora prolongada por dois meses e o Ministério Público deveria ter enviado a decisão para a prisão onde ele se encontrava detido. Porém, foi enviado por engano o documento errado. Nem o Ministério Público nem a administração prisional detetaram o erro. Mais tarde, a câmara de acusação concluiu que o suspeito estava detido sem um mandado válido e ordenou a sua libertação imediata.
«Diana foi novamente abandonada»
A família da vítima reagiu com revolta e desespero. O advogado da família, Anthony Rizzo, disse à imprensa belga que os familiares de Diana receiam agora pela própria segurança. «Antes do homicídio, Diana telefonou várias vezes à polícia para pedir ajuda. Hoje, a família sente novamente que as falhas da justiça estão a abandonar Diana», afirmou. Os familiares exigem que sejam totalmente esclarecidos os erros e as responsabilidades de todos os envolvidos.
O Ministério Público de Bruxelas anunciou a abertura imediata de duas investigações distintas — uma criminal e outra administrativa — para analisar detalhadamente o decorrer do processo e determinar a origem do erro. Para a família enlutada, porém, as explicações chegam demasiado tarde.
O que acontece agora?
A libertação do suspeito não significa o fim do processo. A investigação judicial está praticamente concluída e a câmara do conselho deverá decidir em breve se o homem será enviado para o Tribunal de Assize, onde será julgado por homicídio. O advogado da família manifestou, contudo, uma nova preocupação: receia que no julgamento «já não exista um arguido», sugerindo que o suspeito agora em liberdade poderá fugir do país.
Conclusão
O caso de Diana Grama volta a demonstrar como um erro burocrático pode comprometer anos de trabalho de investigação e aumentar o sofrimento de uma família já devastada. Num caso de feminicídio, em que cada pormenor conta e a vítima pediu ajuda repetidamente, bastou o envio de um documento errado para libertar um homem suspeito de homicídio. A justiça belga terá de explicar como foi possível cometer este erro e que medidas pretende adotar para impedir que se repita.






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